Fechada em meu casulo. Não vivo, mas procuro viver.

É uma vida meio preguiçosa, sem grandes feitos, mas planejando-os.

E tem uma rotina no meio, porque a rotina é necessária para me manter lúcida.

E perceber que sou também responsável pode até fazer crescer, mas dói.

Contudo não me afasto da dor, quero toda a dor sem me anestesiar.

Quero senti-la até o último pingo e para isso me despetalo devagar.

Nesta pungente dor, não sinto nada.

Não sinto o ar tremulando, os pássaros, as flores e até minhas amigas borboletas.

Todo ar parado de dor.

Apenas sinto o pequeno réptil a balançar a cauda e me olhar com olhos enviesados.

Será que ele gosta de crisálidas? E nem conseguirei fugir se ele perto de mim chegar.

Parece que ele percebeu meu desejo de solidão, entretanto, e parte em busca de outros pequenos insetos.

Trancada, eu posso apenas esperar pela transformação.

E respiro o pouco ar que encontro aqui dentro.

Só... não solitária. Triste... não deprimida. Ácida... não amarga.

Queria poder sair daqui e viver  toda a minha vida de borboleta.

Acontece que não chegou a hora e até tenho saudades de uma vida de lagarta.

Época que precisava me alimentar de qualquer coisa que via pela frente.

 Chega um momento, contudo, que precisamos ser mais seletiva, talvez.

Não quero é essa inanição, mesmo que eu precise dela.

Quero a fartura completa. Não foi na fartura que eu vivi até agora?

Ou pelo menos na ilusão dela porque o que eu comia era apenas folhas da mesma árvore que encontrava.

Eu me rastejava e comia e minha vida se resumia a rastejar e comer.

Eu quero asas que me levem, e sentir o ar todo no meu pequenino e frágil ser.

Eu quero asas que me levem a escolher a flor e qualquer uma.

Não, não penses, tu, meu ar, que te ti esquecerei.

Poderia esquecer do que mantém vida, do que me mantém viva?

Aqui, em meu casulo, é em ti que penso.

E penso em como posso sobreviver tão longe.

Como lagarta, como borboleta é o mesmo ar que respiro.

Em todas as minhas formas, foste tu, luz, guerreiro, amor.

E a cada transformação, um novo eu, um novo tu.

Em cada nova vida, um outra, que se encontra ou não, mas anda no pensamento.

Levemente, como ar, ou como réptil, sempre por perto.

Hoje eu estou bem, leve. Com cheiro de livros velhos e com sonhos novos.

Pequena crisálida a esperar uma nova vida.

 

 

 

 

Melancolia

 

Uma tristezinha fininha, como as gotículas que caem neste instante sobre o rosto, melancolia.

Dia entre trabalho e filmes no vídeo, entre a cozinha, o quarto e a sala, pensar apenas.

E o futuro, inóspito.

E o passado, uma mistura de alegrias e tristezas, alegria de cores berrantes, tristeza por ser passado.

Motivos não existem, é predisposição de um corpo circulando por este espaço a minha volta, pensar.

No sorriso da personagem relembro o meu, as mesmas esperanças, a mesma alegria transbordante, o mesmo não se importar com o mundo, deixa pra lá, a mesma crença na eternidade.

Não, eu sei que terminou, mas.

Medo, nunca mais sentir o mesmo, ser uno até o fim, não se sentir embriagada, não se entregar mais.

Não, é a madrugada, hoje eremitério e voz embargada, sem nada a dizer além destas palavras, silêncio pensativo.

 

Hoje eu chorei pela cidade e me entristeci.

Andando calmamente, com um corpo que anda, porque andar é uma daquelas coisas que fazemos sem pensar.

Pensamento eu não tenho nenhum, a muito tempo.

Antes vivo nesta languidão diária, esperando que a vida acabe encontrando um rumo.

A vida, não eu, que eu não tenho cabeça para nada.

Eu andava sem pressa na cidade que não era minha.

Fui expulsa quando ela e eu nos tornamos apenas uma.

Eu crescia dentro dela e tomava espaço, penetrando-a, descobrindo seus segredos.

Já a sentia minha.

Foi quando colocaram um fim em mim.

Deixei de ser cidade.

Quando hoje nela fui, já não era mais minha e a via como sempre a vi.

Estrangeira da cidade.

É como se ela se sentisse ameaçada pelos seus segredos seres tão meus.

Dei adeus aos meus prédios queridos.

Hoje sou apenas uma mais que em sua frente.

 


Faltou luz, tomamos soda cáustica..

Pois é, a cada ano que passa sinto-me exatamente como descrevo a seguir quanto à essa amizade tão sincera. Sendo como somos, tão parecidas e tão diferentes em nosso cotidiano, nosso reencontro é sempre uma sensação não de nostalgia,  e sim de integração de reafirmação. Ambas esperamos um amor exclusivo, personalizado. Um amor forte, resistente que suporta choques. O nosso amor não tem prazo de validade, não temos um envolvimento perecível com data para acabar, nosso amor a cada reencontro é marcado, não se estraga e não mofa. Não temos  um envolvimento quebradiço que  se parte na primeira queda. Quantas já passamos juntas?  Gosto de escrever, e assumo que falar de nós me deixou inquieta esta noite,  escrevo porque me sufoca a dor, porque me transborda a alegria, porque me angustia. Escrevo porque as letras dizem o que não sei falar. Escrevo sobre todos os assuntos, mas confesso que  escrever sobre nós três pra mim é terapia, me organiza a alma. Pra vocês escrevo sabendo que não preciso de entrelinhas,  nos entendemos num olhar, nos conhecemos muito bem.

Queria ressaltar a nossa fidelidade, que mesmo com o tempo, que quando se diz presente já passou em segundos, conosco a sensação do reencontro é diferente, passe o tempo que passar, nosso reencontro é sempre renovador, estimulante e cheio de energias. Se alguém perguntar o que somos, diria que somos hoje estrelas coloridas com um pé na felicidade, outro obviamente na ansiedade, estamos com uma mão na saudades de tempos idos e outra na expectativa de um recomeço sempre, uma novidade boa, uma mudança radical. Mas o que de melhor nos acontece é essa descoberta de que estamos sempre à  busca. Seja doida, sã, normal, anormal ou diferente, o que não queremos é ser a mesma caixa quadrada e que o mundo nos encaixe  e  aprisione.  Somos superpoderosas! Temos uma poética maneira de ver o mundo? Temos SIM!! Nos amamos!!

 

Novos tempos 

Houve um tempo em que eu escrevia sem me preocupar com ortografia, concordância.
Quem acompanhou o blog desde o início sabe.
Mas é claro, tudo muda.
à medida em que percebia o número de visitantes aumentando no meu contador de visitas, passei a me preocupar mais com a estética, a apresentação, e também com a qualidade - duvidosa - de tud o que eu escrevia.
Aprendi um bocado lendo blogs alheios.
Angariei fãs, tornei-me uma.
Conquistei amigos, e descobri com surpresa, que aquela amizade era real.
Que podia ser real apesar de todas as diferenças e distâncias.
Hoje, por um motivo bobo, fiquei triste.
Mas é também verdade que nos últimos tempos tenho andado um bocado triste.
Sendo assim, dizer que hoje estou triste é redundância.
É chover no molhado.
Para quem acreditava que as mudanças haviam-se dissipado.  Pois é, o motivo da tristeza é por aí, tem a ver com mudança..as quais sempre me fizeram resistente.

As experiências acumuladas ao longo dos meses, anos, fazem-me sentir senão mais velha (palavrinha difícil de encarar), mais calejada e vivida.
Como sempre, insatisfeita.
Mas...alto lá!!
Eu aprendi, e muito.
Estou tentando reunir forças para encarar os problemas que vão surgindo e para isso tenho me recolhido em minha concha.
Mas quero voltar a ver a luz do sol.
Então hoje, timidamente, atravesso a soleira da porta e me permito viver

 

 

 

CLIQUE!!

Quando eu crescer, criar juízo, ser alguém assim, respeitável, distinta, aceita pela sociedade (rsrs) talvez eu pare de perder todas as coisas possíveis e imagináveis que tenho. Ou ao menos vou saber onde as deixei/guardei/pus. Vou conseguir ficar com um óculos escuro durante mais de um ou dois meses sem quebrá-lo. Vou parar de escrever telefones na palma da mão. De beber refrigerante no gargalo. De enfiar a colher que pus na boca no doce novamente. De passar o dedo na cobertura. De mascar chicletes todo o santo dia. De dançar na sala de calcinha. De trocar de bolsa todo o dia e esquecer os documentos em alguma delas sem nunca saber em qual. De comprar sapatos compulsivamente. De passar horas a fio baixando músicas na internet, fazendo slides e vendo fotogrfias. De fofocar e dar risada no msn com minhas amigas. De só ouvir música estranha. De gastar uma boa grana com gibis. De ter essa síndrome de rock star que não me abandona de modo algum. De ser tão voluntariosa e fazer bico quando não consigo o que quero. De inventar coreografias malucas em frente ao espelho enquanto escuto Krafwerk. De gritar no meio do escritório, do nada, só pra quebrar o tédio. De achar a vida injusta, mas mesmo assim ser completamente louca por ela. De me comportar como se eu estivesse nos anos 80…ainda. De passar a noite bebendo e filosofando com meu irmão  sobre a origem do universo e nosso papel nesta palhaçada toda, fazendo paralelos, claro, com as letras dos Smiths e do Death Cab For Cutie. De abraçar as pessoas que gosto, de tocá-las, de ser tão malditamente táctil. De ser tão direta, sincera, sem filtro. De falar palavrão. De ver filmes tristes que já vi anteriormente e sempre chorar nas mesmas cenas. De ser tão apaixonada por WYD e Games. De escrever bobeiras nesse blog.

De ser tão moleca, sem jeito, despojada, descolada…

Mas isso, só quando eu crescer….

 

 

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